sexta-feira, 25 de julho de 2014

"Anão diplomático"

BRASÍLIA - Depois de três anos e meio de uma política externa dorminhoca, o Brasil deu um pulo da cama, tomou-se de brios e partiu para cima de Israel.
Em sintonia fina com o Planalto e num mesmo dia, o Itamaraty votou a favor de uma resolução dura contra Israel no Conselho de Direitos Humanos da ONU, soltou uma nota com zero firula, convocou o embaixador brasileiro em Tel Aviv e chamou o embaixador israelense em Brasília para dar um recado mal humorado.
A nota oficial, condena "energicamente o uso desproporcional da força" e foi recebida como uma declaração de guerra diplomática por Israel, que reagiu também de forma surpreendente e ácida, ora criticando a "irrelevância" da diplomacia brasileira, ora chamando o Brasil de "anão diplomático". Planalto e Itamaraty bufaram.
As relações entre Brasil e Israel têm sido pautadas pelo pragmatismo, por exemplo, na área comercial, mas nunca foram de amor. Portanto, o Brasil se fingiu de desentendido na guerra civil síria, assistiu de camarote o desastre político no Egito e, pior, lavou as mãos quando os vorazes russos passaram a devorar nacos da Ucrânia. Mas o país se sentiu à vontade para condenar Israel. E com motivos inquestionáveis.
Mortes são dolorosas em quaisquer circunstâncias, mas mortes de militares em guerras e em situação de tensão são compreensíveis, como são agora as pouco mais de 30 mortes de soldados israelenses. Mas como não ver, não ouvir e não gritar diante de centenas de mortes de civis palestinos (e de onde quer que seja), ainda mais se grande parte delas são de mulheres e crianças? E como não ver, não ouvir e não gritar que caíram mais de 700 de um lado e menos de 5% disso no outro? Crime de guerra?

A posição brasileira, clara e dura, marca uma inflexão da política externa de Dilma, a meses do fim do governo, e confirma que Israel perdeu a guerra da opinião pública internacional e está cada vez mais isolado. 

Eliane Cantanhêde, jornalista, é colunista da Página 2 da versão impressa da Folha, onde escreve às terças, quintas, sextas e domingos. É também comentarista do telejornal 'GloboNews em Pauta' e da Rádio Metrópole da Bahia.

Um comentário:

Ricardo disse...

O que está ocorrendo em Israel é algo aterrorizante. Não há como se negar!

Agora, uma pergunta: por que o Brasil não se manifestou contra a Rússia quanto ao desrespeito à soberania da Ucrânia?, pois é inegável também que ela está fornecendo armamentos aos separatistas/mercenários/etc... O que dizer do abate da aeronave civil da Malásia? Aonde está o Brasil? Por que não se manifesta? 02 pesos e 02 medidas? Em ambos os casos, em Israel e na Ucrânia, estamos diante de terrorismo puro. E o nanico, FATO!, demonstra sua parcialidade...