domingo, 26 de janeiro de 2014

ESTAMOS TODOS CONDENADOS A VIVERMOS NA MISÉRIA

Cada vez mais compreendo menos o mundo que vivemos.
O Brasil como país do futuro é desgraçadamente condenado pelo seu passado, pois poucas ações no presente conduzem a melhora de nossa qualidade de vida.
Sempre fui contra termos a possibilidade de sediar a copa do mundo de futebol, olimpíadas, enfim, qualquer evento que importe a sangria de bilhões dos cofres públicos, dinheiro que carece a todos, especialmente os condenados socialmente a uma vida miserável.
Não temos infraestrutura, tudo que é feito é passageiro, a cada obra que vejo sendo feita, perguntou-me o que aprenderam esses engenheiros? Por que tudo é tão ruim e frágil.
Enquanto projetamos sonhos gigantescos, como trem-bala, estádios de futebol a custo estrondoso, deixamos condenadas milhões de pessoas.
Não tiveram passado, somos ignorados no presente e o futuro se vislumbra miserável.
Tomemos o que ocorre em Belém, 76,3% da nossa população tem água tratada; apenas 8,1% tem coleta de esgotos e 1,6% tem esgoto tratado x água consumida, por fim para dar ainda mais razão a esse quadro sombrio, temos 46,1% de perdas de água (dados obtidos do Instituto Trata Brasil, com base no Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS – base 2011).
As 100 maiores cidades, em 2011, geraram mais de 5,1 bilhões de metros cúbicos (m3) de esgoto. Desses, mais de 3,2 bilhões de m3 não receberam tratamento.
Significa que em 2011 as 100 maiores cidades jogaram cerca de 3.500 piscinas olímpicas de esgotos na natureza por dia.
Das 54.339 pessoas internadas por diarreia nas 100 cidades em 2011, cerca de 20 mil (37%) ocorreram nos 10 municípios com as piores taxas de internação por diarreia (Ananindeua, Belford Roxo, Anápolis, Belém, Várzea Grande, Vitória da Conquista, Campina Grande, Santarém, João Pessoa e Maceió). Significa também que 5% das internações do país se concentraram em apenas 10 cidades.
Tenho a certeza que qualquer governante sério, raridade que se vislumbra, tentaria ao menos ter atitudes dignas e respeitosas como seu povo.
Mas o que se verifica é um descaso completo, um esbanjamento desenfreado a custa da população, uma vez que a Presidente Dilma e sua comitiva, após participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos, seguiram para Lisboa em escala que não estava na agenda oficial e segundo o site do jornal Estado de São Paulo, a comitiva presidencial ocupa mais de 30 quartos de dois dos hotéis mais caros de Lisboa. A suíte onde Dilma se hospeda custa cerca de R$ 26 mil (8 mil euros).
Claro que 26 mil reais por dia não vão resolver os graves problemas brasileiros, mas é uma afronta a um povo que ainda morre de diarreia por falta de água tratada.
O problema não é tecnológico, já que existem soluções simples, eficientes e relativamente baratas para este fim, falta tão somente vergonha na cara.

A nossa sina para o subdesenvolvimento foi bem apontada pelo Dr. Artur Timerman, infectologista e Embaixador do Instituto Trata Brasil:
“É um absurdo que o Brasil, que se quer incluir como uma sociedade em desenvolvimento, partícipe das grandes decisões mundiais, ainda apresente um índice tão alto de internações hospitalares por diarreias, uma doença claramente relacionada ao saneamento ambiental inadequado. Esperamos que este estudo sirva de alerta e de incentivo para que as autoridades públicas de nosso País passem a olhar o saneamento básico como agenda prioritária; e que sirva também como incentivo para a sociedade civil, para que esta demande do poder público ações efetivas para uma mudança neste triste cenário.”
Prossegue afirmando que 88% das mortes por diarreias no mundo são causadas pelo saneamento inadequado. Destas mortes, aproximadamente 84% são de crianças (Organização Mundial da Saúde, 2009), sendo, segundo a Unicef (2009), a segunda maior causa de mortes em crianças menores de 5 anos de idade. Estima-se que 1,5 milhões de crianças nesta idade morram a cada ano vítimas de doenças diarreicas, sobretudo em países em desenvolvimento.
Nos países de clima quente as diarreias ocorrem mais durante a estação chuvosa, e tanto as inundações quanto as secas aumentam o risco de ocorrência dessas doenças, tais como a cólera, giardíase, infecção por shiguella, febre tifóide, infecção por E. coli, entre outras. No Brasil, as doenças de transmissão feco-oral, especialmente as diarreias, representam em média mais de 80% das doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado (IBGE, 2012).

Ter ou não acesso a uma água de qualidade e um bom sistema de coleta e tratamento de esgotos faz toda a diferença para afastar estas doenças que sobrecarregam o sistema de saúde, ocupam milhares de leitos hospitalares, afetam as crianças e as cidades como um todo.
Como cidadão tento fazer a minha parte, mas o problema é macro, de política pública, não de ações pontuais e individuais.
Édison Carlos, presidente executivo do Trata Brasil, comenta: “Os resultados reforçam que as crianças são mesmo a parcela mais vulnerável quando a cidade não avança em saneamento básico, principalmente sofrendo com as diarreias. As carências em água potável e esgotos prejudicam o país agora e deixam sequelas para o futuro.”
Esse quadro alarmante, que deveria preocupar os envolvidos não tem resposta no presente, condenando-se gerações a vida de miséria, indignidade e submissão.
Estamos condenados, nossa miséria moral e ética já está delineada.

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