segunda-feira, 4 de junho de 2012

PUTA DEI


“Prostituta não, puta”, corrige Lurdes Barreto, em resposta à pergunta sobre sua ocupação. Após trabalhar meio século na mais antiga das profissões, ela se considera familiar demais com o termo para se sentir ofendida. “Já ouvi de tudo, já fui xingada de tudo. Puta soa até carinhoso hoje em dia. Ser taxada de prostituta é muito burocrático”, confessa a paraibana de 69 anos.
Apesar do jeito descontraído com que trata o assunto, - na verdade, já não trabalha nas ruas há alguns anos por causa da idade - a definição que assume com tanta convicção não deixa de ser uma poderosa bandeira de luta. Atuando como coordenadora do Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará (Gempac), movimento social fundado em 1987 no bairro da Campina, zona de prostituição mais antiga de Belém, conheceu inúmeras histórias de violência contra mulheres motivadas pelo simples fato delas se prostituírem.
“A profissão ainda é marcada pelo estigma, pelo preconceito. A todo momento presenciamos agressões de mulheres por estarem fazendo programa na rua. Já vivi na pele essa situação, sei o que é isso. Mas se esconder é o pior remédio. Para enfrentar o machismo, a hipocrisia da sociedade, só mostrando a cara com um sorriso no rosto”, aconselha a ativista. Seguindo a cartilha de Lurdes, a causa das “meninas” da Campina ganha projeção hoje com a descontração do “Puta Dei”, evento em comemoração ao Dia Internacional da Prostituta, celebrado mundialmente no dia 2 de junho. Organizado em Belém há quatro anos pelo Gempac, a comemoração ganha este ano sua edição mais sacana.
Na programação, que começa cedo, logo pela manhã, às 9 horas e se arrasta pela madrugada de domingo, está a picante palestra “Orgasmos de Cinderela”, ministrada por uma veterana da zona, a prostituta Cinderela, sobre os segredos do orgasmo. Outra atividade que chama a atenção é a “Corrida de Calcinhas”, na qual os participantes, tanto homens quanto mulheres, terão que percorrer o trajeto trajando a peça de lingerie. Permeando o evento, estão discussões sérias como a mesa redonda sobre a legalização da prostituição como profissão.
Diversão e consciência
“Apesar de o Gempac lutar por causas importantes, não havia como dar uma cara sisuda ao evento”, pondera o designer Maécio Monteiro, 27, integrante do coletivo Garfo e Faca, co-organizador do “Puta Dei”. “Optamos por fazer do ‘Puta Dei’ um local de encontro: oferecemos entretenimento, e o público acaba tendo contato com os integrantes e a causa do Gempac”, explica.
O coletivo especializado em produção cultural, que ainda conta com cineasta Mateus Moura, o artista visual Lucas Gouvêa e a jornalista Luiza Cabral, teve contato com o Gempac no início do ano, ao estabelecer uma parceria para a criação de um cineclube na sede do grupo, localizada na rua Padre Prudêncio.
“Compramos a luta das meninas. A prostituição é tida como um lado negativo desse bairro. Mas ao conhecer o trabalho social do Gempac, auxiliando no combate às doenças sexualmente transmissíveis, dando auxilio psicológico, jurídico a essas mulheres, não tinha como ter essa concepção. A Campina não é decadente por causa da prostituição, elas já estavam aí muito antes disso acontecer”, conta Maécio.

Marginalização da área remonta aos anos 1970
A presença das profissionais do sexo no local remonta ao primeiro boom da borracha no Pará, no século XIX. Nos tempos de bonança, a zona era conhecida por seus bordeis e cassinos de luxo, frequentados pelos barões da borracha. Na década de 1970, com o fechamento da zona pela ditadura, se inicia o processo de marginalização da área. “Hoje, mesmo tombada pelo patrimônio histórico, não há política de preservação para o local”, atesta o produtor cultural.
O vácuo governamental na região foi preenchido pela sociedade civil organizada. O Gempac foi pioneiro, seguido por outros exemplos bem sucedidos como o grupo de teatro Cuíra, quem em 2007 montou sua sede em um antigo casarão nas ruas Riachuelo com 1º de Março. A trupe que funciona como um ponto de cultura desenvolve um trabalho social com as prostitutas e moradores do entorno, utilizando as artes cênicas como seu principal instrumento. O trabalho deu origem à montagem do espetáculo “Laquê”, que contou a história da zona baseado nos relatos das profissionais do sexo.
Agora, o Coletivo Garfo e Faca também ajuda a amplificar a luta de sociabilização das prostitutas. O Puta Dei é apenas uma pequena parte do projeto que envolve a criação de um blog, produção de material informativo para campanhas e, futuramente, a revitalização da sede do Gempac. “Captamos recursos pelo fundo Brasil de Direitos Humanos para a produção de uma campanha contra a violência contra a mulher. Começamos a fazer uma transa legal com elas”, brinca Maécio.

SAIBA MAIS
No dia 2 de junho de 1975, 150 prostitutas ocuparam a igreja de Saint-Nizier, na França, para protestar contra o cerco a liberdade que sofriam. De lá para cá, o movimento se fortaleceu, teve avanços e conquistas significativos, mas ainda sofre com os preconceitos e a falta de informação. Por isso, no próximo sábado, 37 anos após o protesto que marcou a trajetória da classe trabalhista, mulheres de todo o mundo comemoram o Dia Internacional da Prostituta, uma data para reforçar o combate aos estigmas que estas profissionais sofrem diariamente.
(Diário do Pará)

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