sexta-feira, 6 de maio de 2011

A ADVOCACIA VIROU UM NEGÓCIO, SEM COMPROMISSO COM O RESULTADO DO PROCESSO

A advocacia mudou muito nesses anos.
Antes se tinham advogados profissionais liberais e poucas uniões de sócios.
Hoje temos grandes grupos de advogados, em sociedades gigantescas.
Aquele que vive do dia-a-dia na advocacia, puro profissional liberal, é coisa rara.
Ocorre que tenho notado o ingresso de sociedades de advogados de fora do Estado, assim muitos reclamados são representados em juízo por profissionais que se desconhece, no máximo se tem representantes na Comarca, contudo sem qualquer autonomia.
A defesa já vem pronto, o advogado designado aqui em Belém, apenas e tão somente subscreve a mesma, sem ter qualquer ingerência na produção intelectual.
É como ser operado por um médico a distância, que manda ordens pelo computador e o paciente nunca conversou com o profissional,
Esse fato também inviabiliza a conciliação, pois os donos do escritório, não atuam diretamente na Comarca e não criam qualquer vínculo profissional com os funcionários da empresa que representam, com os servidores do Judiciário e com os Magistrados.
Depois das audiências, tudo é feito de forma eletrônica, remetidas as manifestações, recursos, impugnações pela matriz do escritório. Vira tudo virtual.
O advogado que não tem nenhuma raiz na instância que atua, não tem qualquer compromisso com o andamento do processo, foram contratados para brigar, não para o acordar.
Ganham, acho por produção, por demanda, logo creio que chegar a conciliar o processo, não se enquadra no contrato firmado.
É comum se ouvir o seguinte: se diz ao advogado, mas Dr. são apenas verbas rescisórias, se pagar aqui em audiência se livra da multa do artigo 467 da CLT, mas a resposta é: não tenho poderes para conciliar, nenhuma proposta me foi repassada. Chega-se ao cúmulo ao se ouvir, sei que o trabalhador tem direito, mas estou aqui apenas para fazer a audiência, por mim pagaria, mas não tive autorização.
Certa vez li no site Consultor Jurídico o seguinte: “Para trabalhar no departamento jurídico de uma empresa, é preciso entender mais de negócios que de teses jurídicas”.
A máxima que o advogado é indispensável a administração da justiça, ficou apenas no plano teórico, na prática vejo que nenhum compromisso essas corporações tem com o processo como um todo.
Assim, não se cria elo de confiança entre o profissional e o magistrado.
No decorrer da carreira a gente acaba separando os bons e os maus profissionais, e sem dúvida quando se conhece o profissional do direito, por mais que defenda tese totalmente diversa do que se julga, se tem o devido respeito ao mesmo, se sabe que o advogado não utiliza nenhuma artimanha processual ou tenta induzir o juiz a erro. É uma relação de respeito, um em defesa do seu cliente, outro, o juiz, mediando e solucionando conflitos de interesse.
Hoje não sei mais quem é o advogado daquela empresa, daquele reclamado, como ele se porta, quais seus propósitos, seus objetivos, enfim, conheço-os apenas de nome, na extensa procuração onde estão listados, quem em alguns casos chegam a mais de quatro laudas ou nos cabeçalhos das petições.
Aquela conversa cara a cara, o debate, o circular diário no Foro, estão deixando de existir.
Não sei se estou errado ou saudosista, mas confesso que ainda prefiro conhecer o advogado pessoalmente, saber quem ele é, não ser apenas um nome, mas sujeito do processo e da justiça.

Um comentário:

Ana Karla Nogueira disse...

Venho percebendo esse comportamento desde a época da graduação, durante os meus estágios, e, agora atuando, vejo esse quadro cada vez mais crescendo e se enraizando no cotidiano trabalhista.