quinta-feira, 28 de abril de 2011

FALOU NO BOLSO VIRO LEÃO, DEFENDER COLEGAS MAGISTRADOS SOU CORDEIRO

Recentemente e de forma isolada a Associação dos Juízes Federais tirou indicativo de greve no dia 27 próximo passado.
Sem entrar na discussão da possibilidade ou não de os magistrados fazerem greve, essa situação me faz lembrar alguns fatos.
É certo e é fundamental que a magistratura tenha boas condições de trabalho, passando necessariamente por um nível salarial compatível com as funções, as responsabilidades e a dedicação que o cargo exige de forma quase que exclusiva, durante todos os minutos de sua vida.
Desde que ingressei na magistratura em 1993, salvo algum lapso temporal, sempre me dediquei a atividade associativa, por acreditar que somente com a união de todos por meio de nossas associações, uma vez que no Brasil o juiz não pode ter sindicato, tampouco ser filiado a partidos políticos, poderemos avançar na consolidação do Estado de Direito, plural, cidadão, tolerante e garantidor dos direitos individuais e coletivos.
Ocorre, que sinto que boa parte da magistratura se interessa exclusivamente em defender seu próprio bolso.
Quando se fala em reajuste ou recomposição salarial, todos viram leões, pugnam por lutas, por realizações de assembléias, por mobilizações, acampar no Congresso Nacional, travar diálogo duro com o STF, enfim, o mundo virtual permite que todos se tornem guerreiros destemidos, corajosos, audaciosos e cheios de proposições, uma vez que teclar é muito fácil, fazer é difícil. Gritam em mensagens eletrônicas.
Tenho acompanhado nesses quase 18 anos como juiz que raramente o coletivo se envolve na defesa das prerrogativas, especialmente quando são violadas a outros.
Assembléias nas associações onde a pauta gira em torno da remuneração são marcadas por grande número de pessoas, já quando se tenta discutir os rumos da administração nos Tribunais, as ingerências das Corregedorias em nosso mister ou quando um colega sofre a ira administrativa e punitiva em claro atentado ao seu livre convencimento, poucos ousam se manifestar, aliás raros ousam.
Falar de dinheiro é atirar contra Senadores, Deputados Federais, a cúpula do STF e repetir que as associações nada fazem, são inertes e aceitam passivamente esse jogo político.
Mas quando se tenta união de esforços contra o sistema interno, que infelizmente no Judiciário é medieval, sem qualquer transparência, destituído de democracia, ninguém mostra a cara.
Poucos ousam se indispor contra Desembargadores, e Ministros, afinal sua promoção depende deles, assim a política do beija mão impera.
Viramos cordeiros quando o assunto é a luta interna, pela democratização do Judiciário, pela extirpação das influências políticas, pela eliminação da influência de grandes escritórios de advocacia, mas somos leões na defesa dos nossos bolsos.
Minhas mãos estão estendidas além do bolso, quero tocar a liberdade, a dignidade do cargo, a garantia de minha independência, ser tratado com igual e por iguais, sem casta, sem subjetivismos.
Bem já cantou os Titãs:

A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade..

Um comentário:

Kauê Osório Arouck disse...

É isso ai! Greve só pra aumentar salários é egoísmo... Não deve ser só essa a insatisfação dos juízes...

As lutas devem ser por melhores condições de trabalho não se resumem a contracheques mais gordos, mas dizem respeito a brigar por uma estrutura melhor, novas varas para distribuição de uma quantidade razoável de processos aos magistrados (evitando-se assim que na conclusão das decisões conste a comum expressão "sentenciado nesta data em razão do notório acúmulo de serviço") instalações que propiciem o digno atendimento ao jurisdicionado e ao advogado (q é fundamental), promoções por mérito e não por política (as "panelinhas" que se criam nos órgãos de cúpula)... A pauta deve ser extensa...

Grevar só para reivindicar salários é puro egoísmo...