sábado, 10 de janeiro de 2009

MASSACRE FEITO POR ISRAEL


Luzes apagadas em Gaza, blecaute midiático nos EUA

A Anistia Internacional e outras organizações de direitos humanos denunciaram a campanha de bombardeio aéreo de Israel como ilegal, assim como a morte de mais de 300 palestinos desde 27 de dezembro, inclusive muitos civis desarmados que não participavam das hostilidades. Os ataques de Israel em Gaza, uma área densamente habitada, provocaram condenações de vários políticos do mundo e protestos em várias cidades.

Por Deena Guzder*, no blog Muzzle Watch. Com tradução do Vi o Mundo


Apesar dos protestos mundiais diante da escalada de violência, a mídia tradicional dos Estados Unidos continua a privilegiar a narrativa pré-empacotada segundo a qual as ações de Israel nunca são desproporcionais, nunca são contraproducentes e com certeza nunca são gratuitas. De acordo com a mídia, os Estados Unidos devem continuar apoiando Israel incondicionalmente, já que se trata de uma democracia refém de islamofascistas monomaníacos que são inerentemente diabólicos.

Promovendo o paradigma de que Israel é sempre David contra Golias, a mídia dos Estados Unidos apresenta o sofrimento dos palestinos como descartável, em nome da vitória de Israel numa batalha épica. Para justificar a carta branca dos Estados Unidos a Israel, a mídia restringe os leitores americanos a uma câmara de eco na qual as seguintes afirmações são repetidas continuamente como se fossem fatos:

1. Israel tem o direito legal e moral de bombardear Gaza em nome de sua segurança.A decisão de Israel de bombardear Gaza representa uma grave violação da lei internacional. A lei da ocupação é uma das mais antigas e pertence a um dos ramos mais desenvolvidos do Direito humanitário internacional.Um poder de ocupação é obrigado a seguir a Convenção de Genebra de 1949, que protege a população civil. O Conselho de Segurança das Nações Unidas decidiu em 1979 que a Quarta Convenção se aplica aos territórios conquistados por Israel em 1967. O artigo 48 do protocolo adicional é claro e diz que Israel, como poder de ocupação, tem obrigações: ''As partes do conflito devem distinguir entre a população civil e os combatentes e entre objetivos civis e militares e devem dirigir sua operações apenas contra objetivos militares''. Os últimos ataques de Israel acontecem depois de um cerco brutal à Faixa de Gaza que causou uma catástrofe humanitária de proporções graves para os residentes palestinos ao restringir a provisão de comida, combustível, remédios, eletricidade e outras necessidades da vida. ''A lei internacional não é respeitada pelas políticas de Israel em relação a Gaza, Israel continua a violar as leis humanitárias em sua ocupação e particularmente a Quarta Convenção de Genebra'', nota Jeff Halper, antropólogo israelo-americano, escritor, ativista politico e co-fundador do Comitê Israelense Contra a Demolição de Casas.

2. Os israelenses vivem em constante medo dos foguetes do Hamas.Desde 2005 o Hamas disparou 6.300 foguetes de Gaza em Israel, matando 10 pessoas. [1] Nos últimos quatro dias Israel reduziu a Faixa de Gaza a escombros e matou 300 palestinos. Durante a história brutal de quatro décadas de ocupação da Palestina e o bloqueio grotesco e desumano de Gaza, as mortes de palestinos foram muito maiores que as dos israelenses. Desde 29 de setembro de 2000 cerca de 123 crianças israelenses foram mortas por palestinos e 1.050 crianças palestinas foram mortas por israelenses. Desde 29 de setembro de 2000 um total de 1.062 israelenses foram mortos e não menos de 4.876 palestinos. [2]

3. O Hamas se nega a reconhecer o direito de Israel de existir e nunca fez concessões. Como nota Seth Ackerman da FAIR (Fairness & Accuracy in Reporting), não é necessário usar eufemismos para lembrar as táticas brutais e a ideologia belicosa do Hamas, mas o grupo já sinalizou que aceita um acordo de dois-Estados e pode fazer outras concessões de paz. [3] O Hamas também fez uma oferta de longo prazo de ''hudna'', ou cessar-fogo, ainda que não atendendo ao que reivindicava Israel.

4. Israel ataca apenas os quartéis do Hamas.Gaza é uma das regiões mais densamente povoadas do mundo, onde vivem 1,3 milhão de palestinos, 33% deles em campos de refugiados da ONU. [4] Evitar a morte de civis na faixa de Gaza é comparável a tentar evitar feridos em Washington, Nova York ou Los Angeles. ''Por ser Gaza tão densamente povoada, não há como fazer um ataque de precisão -- você tem vidro, tijolos e estilhaços voando nas casas das pessoas'', diz Ewa Jasiewicz, uma voluntária do Movimento Free Gaza. [5]

5. Atacar o Hamas vai melhorar a segurança de Israel.Não há dúvida de que os ataques recentes vão apenas multiplicar os detratores de Israel. O supremo líder do Irã, aiatolá Khamenei, lançou um decreto religioso para os muçulmanos do mundo dando ordens para que eles defendam os palestinos dos ataques de Israel em Gaza. Pelo segundo dia na Jordânia, milhares de pessoas se reuniram em Amã e queimaram bandeiras de Israel e dos Estados Unidos. [6] Houve protestos similares no Egito, na Síria, na Líbia e no Iraque, com muitos pedindo uma resposta firme dos líderes. Os ataques de Israel ao Hamas vão afetar pouco a capacidade militar do Hamas e, de acordo com uma pesquisa do canal 10 de Israel, só 6% dos israelenses acreditam que o bombardeio de Israel vai acabar com os ataques de foguetes do Hamas. [7]

6. O governo Bush tem o apoio implícito da comunidade internacional ao culpar os ''bandidos'' do Hamas e aplaudir a demonstração de força de Israel.Com exceção dos aliados mais incondicionais, a comunidade internacional tem condenado os ataques de Israel. O ministro russo das relações exteriores, Sergey Lavrov, pediu que Israel ''suspenda urgentemente'' a campanha militar. O ministro das relações Exteriores do Japão, Hirofumi Nakasone, disse que ''o Japão pede que Israel demonstre a máxima cautela''. O vice primeiro-ministro da China, Li Kequiang, se juntou às vozes que pedem a cessação da violência, ''os chineses estão seriamente preocupados com as operações militares em Gaza que causaram um grande número de mortos e feridos''. [8] O primeiro-ministro da Malásia, Abdullah Ahmad Badawi, também disse: ''A Malásia lamenta o uso de força militar desproporcional de Israel contra o povo de Gaza''. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, cujo país está na presidência da União Européia, disse ao presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas que estava preocupado com a escalada de violência. O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, acrescentou sua voz ao pedido do Conselho de Segurança para a cessação das hostilidades e pediu a Israel que permita e entrada de ajuda humanitária no território. [9] Organizações humanitárias como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch reiteraram seus pedidos para acabar com os ataques ilegais e irresponsáveis de Israel contra uma área densamente povoada.

7. Os ataques contra Gaza são apoiados por toda a comunidade judaica.''Vozes Judaicas pela Paz'' se juntou a milhões de vozes no mundo, inclusive a 1.000 israelenses que protestaram nas ruas de Tel Aviv, condenando os ataques de Israel a Gaza. A organização pede o fim dos ataques a civis, sejam de palestinos ou israelenses. Diante do crescente número de mortos, grupos de paz israelo-americanos têm feito manifestações nas ruas, apelam a autoridades eleitas e fazem contato direto com civis palestinos. Grupos que estão encorajando a paz entre palestinos e israelenses incluem Rabinos pelos Direitos Humanos, B'Tselem, Bat Shalom, Ta'ayush, Yesh-Gvul, Peace Gush Shalom Tikkun e muitos outros. Embora não haja consenso na comunidade judaica quanto aos recentes ataques aéreos a Gaza, as tentativas de protesto da ''esquerda'' judaica não são negligenciáveis. A ''Vozes Judaicas pela Paz'' tem mais de 10 mil integrantes e foi importante para chamar a atenção para a cobertura desigual da mídia [americana] através de sua campanha ''Luzes apagadas em Gaza, blecaute midiático nos Estados Unidos''. Muitos desses ativistas pela paz são profundamente religiosos e buscam no Torah apoio para criticar os ataques de Israel a Gaza. A mídia cobre extensivamente os colonizadores que apóiam as atitudes mais duras de Israel, mas pouco escreve sobre os dissidentes israelenses e seus simpatizantes nos Estados Unidos que advogam um caminho pacífico e não-violento.

A mídia convencional é culpada pela atual ignorância dos norte-americanos e pela lealdade automática a Israel. Em vez de elucidar motivos e contextualizar ações, os repórteres e editores acabam obscurecendo fatos e turvando a lógica. Ao ''de-historicizar'' o conflito, a mídia reduz os palestinos a personagens caricatos que rejeitam as ofertas de paz de Israel e pregam a dissolução do estado judeu.

Uma coluna de Gideon Levy no ''Haaretz'', intitulada ''O Mandão da Vizinhança Ataca Outra Vez'' jamais apareceria em um jornal dos Estados Unidos, nem um simples parágrafo dela seria dito por um político norte-americano, de qualquer partido, de qualquer proeminência nacional, sem sérias consequências para ele. [10]

Quando visitou Israel em julho o presidente-eleito Barack Obama disse, ''se alguém jogasse pedras na casa em que minhas filhas estivessem dormindo à noite eu faria de tudo para acabar com isso e espero que Israel faça o mesmo''. A questão permanece em aberto: o que Obama faria se as filhas dele ficassem sem comida, eletricidade, atendimento médico e dignidade humana?

O que Obama faria se as filhas dele fossem humilhadas sempre que viajassem, se fossem feridas a caminho do abrigo anti-bombas e roubadas de sua infância? Se Obama não responder a essas perguntas com humanidade, podemos esperar mais quatro a oito anos da estratégia fracassada do presidente Bush no Oriente Médio.

* Deena Guzder trabalha na Time Asia em Hong Kong e é formada em Jornalismo pela Columbia University

Notas:

[1] Wall Street Journal (Asia Edition), Editorial, December 30, 2008
[2] If Americans Only Knew
[3] Fairness & Accuracy in Reporting (FAIR)
[4] BBC News
[5] Evening Standard (London)
[6] BBC News
[7] Time Magazine
[8] AFP News
[9] AFP News
[10] Salon.com

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